Domingo, 15 de Dezembro de 2013.
- 20:23. Noite.
Querido diário:
Na semana passada eu terminei de ler um livro muito bom do Sidney
Sheldon, chamado Nada Dura Para Sempre. Nele, durante muito tempo, a personagem
Paige Taylor esperou para reencontrar o seu grande amor de infância, Albert
Hunter, que finalmente voltaria da África para ficar com ela em Nova York.
Albert era alguém que fascinava Paige. Ele era gentil, corajoso, amável,
solícito com as pessoas carentes e tinha vários sonhos, onde um deles era se
casar com a melhor amiga, a Paige. Certa de que também o amava o tanto quanto,
ela nãos se permitiu amar ninguém que não fosse Albert, e assim o esperou por
anos. Mas quando ela finalmente o encontrou, a surpresa: Albert estava casado
com outra mulher. E mais: Ele já não era mais o mesmo Albert com que partilhou
a infância, os sonhos e os sentimentos de paixão. Ele se tornara um homem
egocêntrico e egoísta, que não mais visava oferecer a sua ajuda a quem
precisava, mas sim o dinheiro. E ainda por cima se casara, casara-se com outra
mulher que não era ela.
O mundo de Paige desmoronou. Diante da inesperada
mudança e tristes surpresas, Paige admitiu que só não enxergou o erro de não
ter seguido em frente também porque ficou presa a um fantasma, ao fantasma do
Albert que conhecera na infância e que lhe prometeu casamento, e que para ela ainda
seria o mesmo Albert quando ela o encontrasse. Não imaginava que ele fosse
mudar. Mas mudou.
O drama e decepção de Paige me fez refletir no meu próprio
drama amoroso. Do meu modo, eu, igualmente, me vejo presa ao fantasma do
Henrique que conheci pelo Orkut em 2007, aquele que eu REALMENTE amava. Eu sei
que já escrevi sobre isso aqui outras vezes, mas minha história com o Henrique
é mais ou menos a seguinte:
- Houve uma época – mais precisamente no ano de 2005 - que
eu tive depressão e fiquei completamente sozinha. Sem amigos, sem família, sem
ninguém. Em 2007 eu me curei, mas continuei muito sozinha e isso me incomodava.
Foi aí que eu tive a brilhante ideia de entrar na internet para arrumar amigos
pelas redes sociais. Na época, a que estava em alta era o Orkut, então eu fiz
um perfil e saí em busca de um melhor amigo. Mas não podia ser qualquer melhor
amigo: tinha de ser alguém interessante, que me compreendesse, que me amasse e aceitasse
ser meu companheiro para tudo e pra vida. Eu sentia que essa pessoa existia e
que só estava me esperando encontra-lo para um completar o outro.
Eu passei um tempo nessa missão. Conheci gente pra caramba pelo
virtual, mas nenhum me pareceu ser a “pessoa especial”. Depois de alguns meses eu
já estava até perdendo as esperanças que desse certo, até que surgiu do nada um
convite de alguém que eu nem conhecia me convidando a entrar numa comunidade do
Orkut chamada “Adote um fã de anime”. Para
quem não sabe, Anime ou Animês, são aqueles desenhos animados japoneses tipo
Dragon Ball ou Naruto. Eu gostava desses desenhos, então entrei na tal
comunidade. Havia um tópico onde se tinha que escrever o motivo pelo qual eu e
os demais membros queríamos ser “adotados” por um fã de anime, e entregue a um
estado melancólico e deprimente do meu mais alto grau de carência exagerada, eu
escrevi a seguinte frase: “Eu quero alguém para amar”.
Então, provavelmente comovido com aquele recado apelativo,
Henrique pediu minha amizade pelo Orkut. Três dias depois o aceitei, trocamos
MSN e conversamos o bastante para descobrir coisas em comum e nos apaixonar. Nós
nos tornamos os melhores amigos do mundo, e não demorou muito para começarmos a
namorar.
Só que aí, nos anos seguintes, muita coisa aconteceu.
Henrique e eu namorados por dois anos pela internet, e foi só em 2009 que
finalmente nos encontramos após uma briga que tive com minha mãe e fui expulsa
de casa. Saí de Minas Gerais e fui para o Maranhão viver com Henrique até a
poeira na minha casa baixar, achando que na casa dele as coisas iriam ser boas
e mais fáceis, mas não foi o que aconteceu. Eu tive problemas sérios de
adaptação, virei piada na boca de todo mundo na cidade e a mãe e irmã do
Henrique nunca me aceitaram. Para piorar ainda mais essa equação de desastres,
Henrique também não era a mesma pessoa que eu conheci no Orkut. Descobri
inúmeras mentiras contadas por um rapaz mimado, mal acostumado, relaxado,
grosseiro e egoísta, cujo a mãe nunca lhe ensinara os princípios de uma boa educação.
Descobri alguém que não sabia tratar uma mulher com carinho e que ainda por
cima era viciado em pornografia. Tudo isso, no lugar do rapaz maduro e sincero por
quem eu me apaixonei. Henrique foi a maior decepção da minha vida. Com isso, e
a forte oposição de sua família contra mim, nossa relação foi se desgastando e
caminhou rapidamente para o fim. Começamos a brigar muito, e até hoje nos
encontramos muito feridos e sendo sustentados por uma base muito frágil.
Ultimamente eu tenho me perguntado muito se vale a pena
continuar. Eu odeio morar em Timon; não me dou mais de jeito nenhum com minha
sogra; as pessoas daqui são um nojo, e o Henrique, eu confesso, já não amo mais
como antes, assim como muita coisa nele me irrita e ele se tornou de longe o
homem ideal para mim. Então, pra quê continuar?
A princípio eu só estava suportando ficar aqui
porque sabia que isso dói na minha sogra. Mas eu confesso: até para isso já
estou ficando cansada. Já não suporto mais tanto teatro, não suporto ficar com
alguém por quem já não alimento mais sentimento algum, além do de posse. Pode
ser as mágoas falando por mim, Henrique sempre me fala. Mas já não tenho mais
certeza se na verdade isso não é o meu coração entregando a verdade.
Sobre isso tudo Henrique e eu conversamos inúmeras vezes.
Mas mesmo ele também partilhando dos mesmos sentimentos que eu, por incrível
que pareça, não quer separar. Acredita ele que mesmo com tantas cinzas nós
podemos reconstruir alguma coisa ou até mesmo resgatar o que já tivemos, e que
hoje só estamos em crise devido as circunstâncias do momento.
Eu até posso concordar com ele, porque a prova que de pode estar
certo foi a semana maravilhosa que passamos só nos dois juntos em minha cidade
em Minas Gerais, onde nada do que passamos, as tristezas que vivemos e as
pessoas que as causaram existiam. Foi muito boa a ilusão de que Timon toda
nunca existiu. Tudo o que a gente precisa é de uma segunda chance num segundo
lugar, ele sempre diz.
Mas mesmo assim, vou confessar: é difícil dar uma
segunda chance depois de tudo o que passou, é difícil dar uma segunda chance
quando se tem mágoas ou quando eu me lembro que ele nunca foi aquele Henrique atencioso
da internet. O que me atraiu para o seu lado foi justo isso, aquele fantasma que
ele usou para fazer eu me apaixonar por ele, e no qual ainda estou presa, me
fazendo atentar somente para o Henrique do passado que eu gostava, do qual
sinto a falta, e me impedindo de aceitar e a amar o verdadeiro Henrique que
agora está ao meu lado.
Se depender dele realmente não iremos nos separar. Ele
acredita no renascimento de nós dois. Mas mesmo que eu tente nisso também
acreditar, é difícil, e ainda será, se eu ainda continuar presa a este
fantasma.