Terça-feira, 08 de Abril de 2014.
- 17:08 da tarde.
Querido diário:
Hoje já é dia 8 de Abril. A última vez que eu escrevi aqui
foi ainda no dia 29 do mês de março, quando desabafei o quanto eu estava
chateada por minha irmã não estar respondendo aos meus recados. Depois disso eu
passei o restante dos dias sem escrever. Por causa do assunto da minha irmã e
de outros mais que vinham acontecendo, eu fiquei um pouco mais triste do que eu
gostaria e senti que precisava desvairar sozinha um pouco dessa melancolia
toda, reorganizar as ideias para não ficar tão chata – porque quando triste, eu
sei que viro uma criatura difícil de aguentar, rs.
Quem me conhece sabe que eu sempre gosto de me manter o mais
positiva possível, mas às vezes é difícil não se deixar abater quando há tanta
coisa não boa acontecendo ao mesmo tempo na vida, principalmente quando são
coisas que já se arrastam por anos.
Pondo um pouco de lado os problemas que eu já vinha queixando
nos dias anteriores – a minha irmã e também histórias da minha cunhada chata -,
há também outro fato que ultimamente tem me deixado bastante magoada: o meu
namorado Henrique e a nossa relação desgastada. =/
Ultimamente nós não estamos mais nos dando tão bem como
deveríamos. Temos discutido muito e nos afastamos um bocado um do outro. Na
verdade acho que todo esse desentendimento começou desde que certas ideias
nossas começaram a se chocar perigosamente, e eu passei a perceber e a me
incomodar por estar sempre fazendo a vontade do Henrique em tudo.
E quer um bom
exemplo disso? Por causa dele e do suposto amor que começo a questionar se
ainda sinto, faz 5 anos que abro mão da sensata ideia de voltar a viver na minha
cidade natal em Minas Gerais, onde eu sei que estaria bem melhor perto de amigos e família, só pra
ficar ao lado dele, numa cidadezinha pequena e esquecida por Deus no interior
do Maranhão que não tem nem cinema ou escola, só porque é confortável para ele,
que tem medo de mudanças...
Entendeu como é a coisa?
Pois é. E o pior é que isso
ele não enxerga. Só sabe discutir comigo quando exponho uma vontade
contrária à dele, quando me demonstro impaciente com algo que quero logo. Ele
me chama de egoísta e ingrata. E eu, inconformada e me sentindo desamparada, grito,
choro, argumento e falo que vou embora, choro mais um pouco. Quando não, a
discussão toma proporções estranhas e fica sem sentido, trás de volta assuntos
antigos e problemas mal resolvidos entre nós pra depois terminar em choro da
minha parte, em beijos de desculpas e promessas de uma melhora, da dele. No dia
seguinte tudo fica como se a discussão nunca houvesse existido. A mudança
prometida também nunca aparece. =/
Cansada disso, desse circulo vicioso que nunca muda, me
pergunto as vezes: por que será que isso
nunca muda? Será que é assim em todo namoro ou só no meu? Por que é que não
consigo resolver? O que é que falta ou, o que é que me atrapalha de realmente e
finalmente por um ponto final em tudo de uma vez?
Foi aí que eu tive uma espécie de revelação cósmica, rs.
Recebi a resposta para todas essas perguntas de uma só vez e de uma maneira bem
inusitada. E é sobre isso que quero escrever hoje, diário, para lhe contar
sobre essa nova percepção que pode me ajudar a resolver muita coisa sobre minha vida.
A tal maneira inusitada foi durante um momento dos mais improváveis, enquanto eu
fazia a nada animada e entediante tarefa de secar a varanda do meu quarto que
se enchera de água suja depois da chuva de uma noite antes. Reparei que,
enquanto eu tirava baldes e mais baldes pesados daquela água suja, mais eu
estava sendo atrapalhada pelas roupas do Henrique que estavam no varal à cima
de mim e batiam o tempo todo no meu rosto. Eu tanto havia pedido para ele mais
cedo as tirar de lá, mas como sempre acontece com tudo que eu peço a ele, o
pedido entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Irritada, dei um murro com violência nas camisas dele, e
brava por causa de outras coisas mais que vinha acontecendo entre a gente desde
os dias anteriores, gritei: “Esse Henrique e
tudo o que é dele está sempre na minha frente atrapalhando o meu caminho”.
Eu
sei, diário, que muita gente não entenderia da forma
como eu entendi na mesma hora, mas aquelas palavras cheias de raiva moveram
mecanismos na minha cabeça, e agora enxergo coisas que antes eu não percebia a
respeito do tudo o que eu tenho enfrentado nos dias de hoje com o Henrique desde que saí expulsa da minha
casa.
Sabe, foi como um clarão ofuscante. De repente percebi muita
coisa. De repente eu compreendi que aquela não era a primeira vez que surgia a
ideia de que o Henrique me atrapalha em algumas coisas na minha vida. De
repente eu percebi que, desde o comecinho quando o nosso namoro ainda era só pela
internet sem antes ter nos conhecido, a pessoa quem mais me atrapalhou em
questões importantes da minha vida foi o
meu próprio namorado Henrique.
Nos anos de 2007, 2008 e 2009, quando eu ainda morava com a
minha família e tinha a minha vida em Minas Gerais, e também já namorava o
Henrique pela internet, logo ali eu percebia – mas sempre não dando muita
importância -, que ele me atrapalhava de seguir em frente porque queria que eu
fizesse as coisas do jeito dele. O que eu chamo de “seguir em frente” é
trabalhar, ou cursar uma faculdade fora da minha cidade. Na época eu estava
estudando para um concurso para trabalhar em um banco na cidade de Varginha.
Pra isso eu teria que deixar Poços de Caldas, mas Henrique já enxergou que essa
manobra impediria de a gente se conhecer um dia. Nisso, eu fiz a vontade dele:
eu não prestei o concurso. Fiquei em Poços de Caldas a sua espera, a espera do
grande dia em que viria me buscar.
Dia este que NUNCA chegou.
E não foi só aí que me atrapalhou: Como eu passava muitos
problemas de relacionamento com a minha família, eu contava pra ele meu drama e
todas as histórias do que acontecia dentro da minha casa. Eu lhe falava do
quanto me sentia sozinha e das diferenças que havia entre meus irmãos e
eu. Contei pra ele que me irmão
Peterson, na época, não estava falando comigo fazia um ano, e falei também de
outras coisas que me chateavam diariamente e que nunca davam sinal de que um
dia iriam parar. Tudo o que o Henrique fez diante disso foi muito falar até me
convencer de que, se minha família agia assim comigo, era porque eles eram
pessoas ruins que não me amavam de verdade, e que a única forma que ele via
para o meu sofrimento acabar era eu sair de casa para ir viver com ele no
Maranhão.
Nisso fixou-se então um único propósito em meu teimoso e
carente coração que me manteve determinada dentro da minha casa por dois anos
inteiros: de alguma forma eu tinha que ir embora para o Maranhão, e não
importava se eu conhecia o Henrique ou não, se era perigoso ou não, se era
arriscado ou não. Como eu estava com a cabeça muito fraca, a raiva e a magoa a
me transformar e cegar, acabei fazendo muita besteira na minha casa, não dei
valor a nada e nem ninguém. E por isso, é óbvio, hoje eu sofro muito. Vim parar
na atual situação a qual estou vivendo ao lado do Henrique do outro lado do
país, sozinha, já tem cinco anos e separada da minha família, que agora,
aparentemente, não consegue me perdoar. E pior: o Henrique que tanto falou que
me ajudaria e me protegeria no lugar da minha família não é o mesmo Henrique
que aqui eu encontrei. O Henrique que está ao meu lado se revelou um egoísta
imaturo e oportunista, que só se importa com seus jogos de computador. Um alguém
que não liga muito para compromissos, que não tem coragem de mudar qualquer
coisa da sua vida e não sabe tomar decisões por si só, que precisa e fica o
tempo todo na saia da mãe e não toma dianteira de nada. Sem falar que é um
verdadeiro comodista, que mentiu pra mim sobre tudo e não pôde me proteger nem
da própria mãe ou da ciumenta irmãzinha bastarda quando estas começaram a me
fazer mal.
Faz cinco anos que estou
presa a esta situação. Valeu a pena? “Não” é sempre a resposta que dou para os
poucos que me perguntam isso. Nunca consigo dizer mais que isso. Precisei estar
aqui pra descobrir tardiamente o valor que a minha família tinha, ou para descobri como era de verdade a "Timon que aparecia nos meus sonhos". Precisei estar aqui para ver o que havia por trás do Henrique
por quem eu era apaixonada e por trás da sorridente irmã dele que sempre se mostrou
minha “amiga” na internet; o que havia por trás daqueles amigos deles que se
mostravam – só se mostravam - empolgados pra me conhecerem ou da sogra que,
antes de me ver pessoalmente se mostrava tão amável. Eles nunca existiram, e,
bem, e o que eu descobri nestes dias ao pensar em tudo isso foi realmente perceber
que, se Henrique não tivesse persuadido tanto minha cabeça lá naquele
comecinho, agindo de forma egoísta tentando me trazer para o seu lado ao invés
de me aconselhar a promover a paz entre eu e minha família, quem sabe eu teria
dado a sorte de nunca ter entrado na vida dele, da minha cunhada, da minha
sogra e de todo o resto. Ele sempre alega que me trouxe para o seu lado porque
não aguentava mais me ver sendo magoada todos os dias. Mas eu sei, e ele também
sabe, que ele poderia ter me aconselhado
diferente, visto que eu era a
pessoa sem condições de ajudar a si própria, ir para a casa dele não era
exatamente a única solução disponível, e nós dois sabemos o quanto foi mais
prejudicial eu aqui no meio deles, do que se eu tivesse ficado lá em Minas,
onde era o meu lugar.
Em parte admito a minha culpa. Apesar de que eu estava muito
sensível e carente, precisando de atenção, apoio e com a cabeça fraca, eu podia
pelo menos ter tentado ser menos persuadida. E hoje, só Deus sabe o quanto me
arrependo todos os dias quando me levanto e bato o olho nesse lamentável lugar
que não é meu lar, por ter dado tanto ouvidos ao Henrique. Paguei um preço
caro. Perdi minha família. Estraguei a família do Henrique. E hoje estou sem
rumo, sozinha, muito cansada e tateando tudo às cegas.
Sabe diário, acho que vou contar para o Henrique sobre toda
essa nova percepção, apesar de que sei que ele não falará muita coisa além de
que essa é mais uma desculpa minha para querer me separar dele. De nós dois, ele é quem mais reluta uma separação. Às vezes acho que nem mais me ama, mas insiste
em me manter do seu lado por estar acomodado a esta zona de conforto.
Mas bem, diferente dele eu estou cansada da situação assim,
diário, quero resolver e sair disso, principalmente agora que compreendi estes
detalhes tão importantes: que eu só estou nisso porque lá no comecinho do meu
namoro com o Henrique pela internet, caí na besteira de deixa-lo persuadir
minha cabeça fraca contra a minha família – que, aliás, podia nem estar fazendo
comigo o tudo que eu achava que estavam -, e que foi aí que cometi o pior erro da minha vida. Tudo isso foi culpa de nós dois, muito mais minha. E para ser mais sincera,
também percebi que o problema de eu não estar bem hoje nunca esteve nas mãos de terceiros, ou seja, nas maldades que minha sogra fez pra mim durante muito
tempo, ou nas armações da minha cunhada ciumenta para me mandar embora, ou até mesmo na
cidade de Timon por ser um lugar pobre e não atender em tudo que eu quero. Compreendi que todos estes elementos –
sogra, cunhada e a cidade de Timon -, sempre
existiram antes mesmo de eu sonhar em cruzar seus caminhos, eram problemáticos
em si sem precisarem de mim pra isso. Tais elementos só se transformaram em consequências não
boas na minha vida pelo erro cometido por mim e pelo Henrique,
que me levou até eles.
Ter pensado nisso tudo, coisas tão antigas quando se tem que olhar pra frente, pode até parecer uma besteira pra quem não entende. Mas para mim era tudo o que eu precisava pro momento. Agora que eu mesma alcancei
a compreensão de todas estas coisas posso de fato parar de me sentir vítima de todas estas pessoas.. Vou agora me empenhar na maneira mais
inteligente de descobrir como consertar isso tudo. Porque consertando, eu
saio disso. E quando eu finalmente
conseguir, será o dia mais feliz de minha vida.