- 20:22 da noite.
Querido diário:
Ontem eu chamei o Henrique para conversar, e falei
exatamente tudo o que te escrevi terça-feira,
sobre como eu percebi que um dos piores erros que eu cometi na vida foi o de ter confiado na opinião dele, que eu mal
conhecia na época, e deixar com que isso alterasse o que eu pensava da minha
própria família e mudasse a minha forma natural de agir com eles. E para o meu
assustar ou minha felicidade – ainda não sei dizer – ele concordou com cada palavra
que eu lhe disse e ainda revelou que sente e pensa exatamente a mesma coisa.
Quer dizer: o Henrique, que pela primeira vez aceitou essa
conversa melhor que qualquer outra que já tivemos, me confessou: que quando
começamos a namorar pela internet e fizemos planos de nos encontrar e ficar
juntos, ele também cometeu seu erro particular. E não foi aquele – que por
sinal até admitiu – em que me persuadiu a sair de casa ao invés de tentar
resolver as coisas com minha família. Ele disse que ele era outro sozinho e
carente que se escondia de tudo e todos por vergonha que sentia do seu excesso de peso. Ficara animado com a atenção que eu prestava à ele, e quando eu lhe
disse que estava apaixonada, vibrou tanto com a possibilidade de ter finalmente
a primeira namorada que não mediu metade das coisas que poderiam acontecer e
alterar para levar a diante tal propósito. Ele disse que olhando para tudo hoje
e as coisas que aconteceram, entende tristemente o quão imaturo e louco foi em
colocar em jogo tanta coisa. Viu, como eu vi, tarde demais, o tamanho da
irresponsabilidade de nós dois. Também admitiu que foi um erro. Éramos muito
novos e inexperientes, sozinhos, carentes e loucos por alguém que preenchesse
nossos vazios. E o que aconteceu foi que encontramos um ao outro, e, se for
olhar bem, agimos pelo momento, por nossas mágoas interiores e pelo desespero
de fugir pra longe de tudo que nos machucava na época. Era uma coisa muito
forte, de momento, mas que mudou tudo nas nossas vidas e na das pessoas que
estavam a nossa volta, nas das nossas famílias. E ele ainda falou uma coisa
muito engraçada com a qual eu devo concordar: talvez nós dois nem estivéssemos
realmente apaixonados um pelo outro. Talvez apenas tenhamos gostado da atenção que
demos e recebemos, dos momentos de amizade e das coisas que descobrimos em
comum, e confundimos tudo isso com paixão, com amor, um amor que se acabou tão
facilmente com a primeira intriga que a irmã dele criou e com a primeira
mentira que ele contou.
E agora estamos aqui, diário, e passando por tanta coisa.
Na verdade passamos por incontáveis turbulências em nossa relação. Passamos pelo ninho de
intrigas criadas por terceiros. Mudamos coisas em nossas vidas, saímos feridos.
E pra piorar, ninguém está contente. Quando colocamos em mesa sugestões de como
podemos agora resolver isso entre a gente, apareceram duas opções completamente
encaixáveis à situação: Ou a gente encerra de onde estamos enquanto ainda
nenhum compromisso forte nos obriga a ficar junto (como filhos e casamento, por
exemplo) aí eu volto para Minas Gerais, e ele, óbvio, fica aqui em Timon, ou a
gente tenta aprender a se amar e a namorar de verdade. Afinal, parece
brincadeira, mas essa confusão toda nos mantém juntos já faz sete anos, a gente se conhece até mais
que bem e, por mais que eu não goste de admitir, isso é uma união estável.
O Henrique, como era de se esperar, optou pela opção de
continuarmos e tentar. Mas eu, diário, sendo muito sincera, preferia a
primeira.
Se for dizer o porquê, não acho ou sinto que continuar isto
como está seja a coisa certa a escolher, principalmente se eu for considerar
como eu me sinto vivendo aqui onde estou e como estou depois de toda a pressão
que recebida minha sogra. Além do mais, tem o Henrique. Ele não é nada do que
eu quero em um homem para mim, e sendo mais sincera ainda, não acho que um dia ele
será. Eu gosto muito dele. De verdade. Como amigo, é ótimo, mas confesso que
não tenho coragem de me casar com uma pessoa por quem não alimento outro sentimento
além do de posse, o mesmo que me provoca a satisfação por saber que ele está do
meu lado e não ao lado da minha cunhada, que por sua vez sempre disfarça o
tamanho da falta que sente dele e por quem sempre ei de alimentar essa rixa,
essa raiva, por não conseguir perdoá-la pelas coisas que fez.
Pelo menos eu consigo admitir isso, então, é por isso
que eu não queria continuar. Da minha parte não é sincero.
E, sabe, ele também me confessou que já não me ama mais como
antes, faz tempo, e quando eu perguntei por que então ainda inceste que
fiquemos juntos, ele disse que alguma coisa o faz acreditar que se realmente
tentarmos, se realmente quisermos e se nós nos afastarmos de tudo o que ajudou
a causar o nosso desgaste, nós poderemos realmente nos amar e nos gostar de
verdade.
Sinceramente, não sei o que dizer. Eu não concordei e nem
discordei com nada. Pode ser que ele tenha razão. Mas pode ser que eu também tenha
e possa vir a me arrepender se concordar com ele, mais uma vez. Encerrar tudo
isso pra nunca mais, seria a chance que eu tanto queria de fazer as coisas – ou
pelo menos uma parte delas – voltarem a ser como eram antes de eu entrar nesse
redemoinho de problemas, pois desde que pisei na casa do Henrique eles nunca
tiveram fim.
Mas também, por outro lado, eu teria de ficar sozinha.
Admito que acostumei à ele, à presença dele. Começar uma vida a dois é sempre
muito mais fácil que sozinho. Admito tenho esse outro medo que é o de me
separar, ficar sozinha e descobrir mais tarde que fiz errado. Mas também estou
cansada dele, diário.
Não sei, não sei o que fazer. Sinceramente não sei. Apesar
de que tenho urgência em ver isso resolvido para finalmente dar seguimento à
minha vida, por enquanto, acho que vou deixar rolar.

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