Sexta-feira, 19 de Abril de 2013.
Confessionario meu:
Na noite de quarta-feira, dia 17, nós nos desfizemos da última
gatinha que estava em casa e que não podíamos mais ficar. Agora, dos doze gatos
de estimação que tínhamos, restaram apenas Pupy e Estrelinha que irão conosco
na mudança pra Minas.
Henrique ficou arrasado, chorou no escuro quando nos
deitamos para dormir. Apesar de que não muito demonstrava se importar com eles,
tinha com cada um de nossos bichinhos um apego emocional, e pela irremediável
ida de cada um, Henrique ficou terrivelmente sentido e magoado.
Mas a questão principal nem é os gatos. Ele sabe que podemos
ter muitos deles quando finalmente chegarmos a nosso destino. O que o atormenta
é essa transição do comodismo -e-familiar- mesmo- que- ruim de Timon, para o
desconhecido e novo de Poços de Caldas. Ele sabe que vamos morar num dos
melhores lugares do país, sabe que vai ter uma vida que a mãe dele jamais
poderá proporcionar. Sabe que terá amigos e uma nova família realmente amorosa.
Sabe que vai ser livre, e que em Timon, além de presos e regulados por sua mãe,
ela morrendo, nem casa ele e a irmã terão direito, por ser das tias deles o
imóvel em que estamos morando. Mas, ainda assim, sente medo de arrepender-se e
não adaptar.
Ontem à noite, gastamos horas nessa discussão. Henrique finalmente
abriu o coração. Falou até do pai que morreu há dez anos, uma figura muito
importante e influente em seus sentimentos. Ele lamentou a morte do pai porque
em questões sentimentais nem ele, a mãe, e a irmã –menos ainda ela- foram os
mesmos depois dessa perda onde se viram sozinhos, e preferiu infinitas vezes
que ele jamais tivesse partido.
Fomos dormiu com uma horrível e estranha interrogação no ar.
Especulávamos até a radical ideia de nos separarmos para ele poder ficar.
Mas aí, na manha de hoje, Henrique me surpreendeu com um
excelente bom humor e a seguinte decisão: definitivamente quer ir comigo para
minha cidade natal em Minas Gerais. Após pensar muito consigo mesmo, concluiu e
me disse que devia pensar no que seu pai diria se estivesse vivo. E ele acha
que o pai iria querer que o filho fosse comigo em busca de um futuro melhor.
Henrique disse que seu pai era uma pessoa muito viajada,
sabia que lugares melhores e mais prósperos existiam muito além de Timon. Com
certeza iria querer que o filho crescesse e se mudasse para um lugar melhor.
E sobre a questão de sua família, a mãe e a irmã, bem, Henrique
me contou que seu pai era excelente para os dois filhos adotivos, mas não
suportava a mulher que tinha, no caso, minha sogra. Henrique disse que se
estivesse aqui, o pai lhe diria para ele não deixar de viver a vida dele por
causa da mãe, que odeia qualquer coisa diferente e que foge de seu controle.
Mas o mesmo ele não diria da menina. Henrique acha que o pai o pediria para ele
cuidar da irmã, se possível, até a levando junto para onde Henrique fosse para
protegê-la da minha sogra que gosta de maltratá-la.
Mas agora essa é uma questão complicada, me disse Henrique,
já que aconteceu tanta coisa entre ele e a irmã. E ela mudou muito. Interiormente
ele acha que seu pai, lá no céu, compreende.

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