Hoje vim expressar em palavras a minha visível
revolta. É que na última segunda-feira, dia 5, pela milhonésima vez que posso
contar, tivemos a energia cortada.
Já expliquei em outra oportunidade como é a
condição onde vivo. Eu moro numa das metades da grande casa antiga que minha
sogra dividiu ao meio para que Henrique, mesmo na vida dele, continuasse perto
dela.
Só que a energia dessa casa continuou uma
só para todo mundo. Se cortam a dela por falta de pagamento, é obvio que a
minha também se vai. E é isso que não aguento mais. Porque desde que moro com a
família dele, passo por isso quase sempre. E nem preciso dizer o quanto a
situação é desagradável e demais humilhante.
É humilhante não só pelo fato dos visinhos
verem o que acontece quase todo mês, mas também por eu não me conformar e não
entender como e por que uma pessoa como eu, que nasci onde nasci e fui criada com
tanto conforto, tem agora que passar pelo o que eu passo.
Estou muito cansada dessas limitações
todas, da falta das coisas nesse lugar. Aqui geralmente falta o básico para um
ser humano viver bem, falta comida, a energia vira e mexe é cortada, se não é
ela, é a internet ou a aguá… Eu não aguento mais!!
Olha, eu vou aproveitar o momento para
desabafar uma coisa muito séria. Algo que nunca peguei para falar mesmo, mas o tenho
sempre em consciencia.
Quando começei a namorar Henrique, ao saber
de onde ele era e ao cogitar a ideia de, em algum dia, ir parar no lugar, eu
lutei e lutei muito até conseguir controlar o lado muito forte e esnobe que eu
tenho. Tudo porque nasci em boa família e sempre tive alto padrão de vida e
bens materiais.
Saber que estaria indo para um lugar onde me
daria com pessoas com condição financeira e status social diferentes do meu,
era um prato cheio para os meus preconceitos.
Acontece que tentei ao máximo me fazer
humilde, andar vestida simples como todo mundo na rua, me fingir de alguém tão
sem coisas quanto todos, tudo para não comprar a raiva das pessoas com quem
iria conviver.
E consegui. Me mostrei humilde por dentro e
por fora, respeitei e tratei todo mundo igual, sendo que na minha vida em
Minas, sempre manti a nojenta mania da clássica menina bem de vida e esnobe
acostumada a apontar os menos favorecidos. Eu convenci as pessoas de que eu não era nada,
porque se eu fosse manter a postura que realmente tenho ou vestisse aqui as
roupinhas que vestia antes…
Eu sempre me controlei e ocultei meu
pedestal. Mas nesses dias eu não me aguentei. Numa incontrolável explosão de
fúria, eu disse um monte de coisas horríveis, horríveis que não deixam de ser a
verdade, meu lado esnobe dispertando com tudo, enquanto vazava minha raiva em
ver a energia mais uma vez sendo cortada. Não por minha culpa, mas pela
irresponsabilidade de quem quer nos manter seus dependentes mas não tem um
pingo de compromisso com a vida. Inasceitável e mais uma vez revoltante.
O que me consola é que essa realidade de
vida do cão vai mudar. Falo da decisão que Henrique e que tomamos de sair de
uma vez dessa vida de misérias aqui de Timon, assim como a Ana Vitória, minha
cunhada, também irá fazer. Mas sobre isso e em como estão indo as coisas, conto
numa outra oportunidade. Hoje não estou afim. Só quero tentar relaxar depois e
tantos dias de estresse.

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