domingo, 15 de setembro de 2013

A filha perdida da família Faustino.

Domingo, 15 de Setembro de 2013.
- Tarde. 

Querido diário:
Prepare-se, porque o que tenho a contar hoje é uma baita de uma surpresa e tanto. Acho que é a maior da minha vida. Por alguns dias eu evitei vir aqui escrever. Eu sei. Me mantive longe porque precisava organizar e entender meus novos sentimentos. Aconteceu uma surpresa, diário, das mais improváveis na minha vida. Foi no último dia onze, mas digo que até agora a minha ficha não caiu. 
Eu achei a minha família biológica, quer dizer, ela me encontrou; e tudo aconteceu de uma forma que mais parece uma história de novela, filme, livro, sei lá. 

- Bom, por causa dessa viagem meio desesperada que quero fazer à Poços em Outubro, e, precisando de um lugar para ficar que não custasse caro, eu coloquei um anúncio de procura-se hospedagem numa página da cidade, no Facebook. Foi assim que arrumei aquele tal lugar bacana do qual falei certa vez e que já está todo acertado pra mim. Só que eu obtive vários outras respostas de outras pessoas também dispostas a ajudar, e entre elas tinha uma moça que muito me intrigou, porque havia algo nela e em seus traços que me soavam familiar, que me faziam pensar em mim mesma.
Eu sempre tive a mania boba de achar que toda menina morena se parece comigo, mas algo naquela moça especificamente era inquietante. Foi aí que reparei pela primeira vez em seu sobrenome: Faustino, um sobrenome incomum e pouco conhecido, mas que pra mim era familiar por se tratar do sobrenome da minha mãe biológica.

Eu conheci minha mãe de sangue quando eu tinha apenas doze anos. Foi a primeira e única vez que a vi na vida, num encontro promovido pelo conselho tutelar. Depois disso nunca mais eu soube qualquer notícia dela, e tão pouco me interessei em sair para procura-la. 
Mas aí apareceu essa moça trazendo de volta pensamentos sobre essa mãe que me fizeram questionar a hipótese mais improvável: será que haveria alguma possibilidade dessa moça chamada Adriely ser a minha parente?
Preferi não saber nada sobre isso e assim que pude dispensei sua ajuda com um recado educado. Mas dois dias depois, eu não sei exatamente por qual razão eu perguntei à ela se havia em sua família uma mulher com o nome de Maria Cassia.

Meus Deus,e pra quê. 
Imediatamente veio o choque misturado à surpresa: Foi conversando com ela que descobri mais um espavento que o destino colocava em meu caminho: Adriely na verdade era minha prima de sangue e sua tia Cassia era mesmo a minha mãe. Ela me contou também que Cassia e o restante da família me procurou por anos, foram até em tvs e rádios locais para ver se me encontravam. Pela internet enquanto digitava pra mim pelo chat do Facebook, Adriely não pode conter sua emoção, e queria que eu também ficasse feliz por saber que eu era a sua prima perdida.
No momento em que dei conta do que foi descoberto, eu não consegui esboçar nenhuma reação física: gritar, chorar, sorrir, desmaiar, nada. Mas por dentro eu desmoronei. Senti como se dois mundos dentro de mim entrassem em choque. Tudo aconteceu nesta última quarta-feira, e digo que até hoje, domingo, eu não consigo acreditar.
A única coisa que sei dizer que sinto com exatidão é desconforto e medo. Pra ser sincera, eu não tenho certeza se quero isso pra mim, se queria isso pra minha vida.
No dia que tudo aconteceu, eu liguei para a minha mãe mesmo, a que sempre me criou, e contei pra ela sobre a Cassia. Eu tive duas boas surpresas: a primeira é que ela me atendeu e me tratou super bem ao telefone ao dizer que sentia saudades de mim. E a segunda é que também apreensiva, me falou pra tratar bem a Cassia, mas que era pra eu não aprofundar muito a relação com ela. 
Juro que cheguei até esperar que, depois de tudo, ela me mandasse ficar de vez com minha família de sangue. Mas não foi assim que acontecer. Sinal que minha mãe Suzana realmente faz questão de mim. Ela ficou tão surpresa e com a mesma insegurança que eu, pelo aparecimento da outra.

Sendo sincera, diário, eu até agora estou a me perguntar e a perguntar pra Deus qual o propósito do surgimento dessa família agora na minha vida, já que ela ainda é uma baita loucura de coisas mal resolvidas e sentimentos equivocados. E pra dificultar ainda mais os meus sentimentos, Adriely pediu e passou meu número para a Cassia, na certa com o fim de proporcionar alegria a sua tia. Só que desde então Cassia tem me ligado sempre que confortável pra ela, se esquecendo ou ignorando o que eu estou a sentir, causando muita confusão e tremores nos meus sentimentos.
Eu a entendo perfeitamente. Entendo que sou a filha que ela procurou por anos. Me contou todas as suas histórias e tudo o que sentiu por minha causa, contou da depressão que sempre teve e que já faz dez anos que é cega, mas eu queria que ela ao menos desconfiasse que eu no momento preciso de espaço e tempo para entender tudo que está se passando na minha vida agora. Ela, suas palavras, seus sentimentos, seu carinho e sua vontade de querer que eu seja agora a filha que ela não pode criar a vinte e seis anos atrás me amedrontam, e não sei realmente se poderei cumprir com o que ela espera de mim agora que me achou. Talvez pra mim seja até impossível ser o que ela quer.

Agora sei que tenho irmãos, duas moças e um rapaz; sei que tenho primos, tios, avós, padrasto, todos colocando em mim as mesmas expectativas que a Cassia, e a ideia – talvez adiantada demais – de que sou a filha perdida da família que agora apareceu para ficar no meio deles.
Eu estou assustada. Eu não sei o que pensar ou como reagir. Só confesso que não estou me sentindo nenhum pouco a vontade com isso agora. Minha cabeça está muito confusa e meu coração, uma bagunça. Eu de verdade não queria isso pra mim.

Eu realmente não queria.





 


Um comentário:

Clara disse...

Mariiii, que história, estou chocada!!!
Então, assim do nada sua família biológica simplesmente aparece e vc descobre que estava sendo procurada!!! Nossa, isso é realmente muito para processar!
Imagino que sua cabecinha esteja a mil!!!

Apesar de tudo, tenho para mim que não existem coincidências, e que talvez Deus tenha colocado essa sua prima no caminho que te levou à saber sobre sua família biológica. Claro que não estou te falando para se atirar de cara nessa história, afinal, muitas coisas precisam ser conversadas, esclarecidas e etc. Imagino que vc queira esses esclarecimentos...

Mas, no fim das contas acho que foi bom, foi muito bom. Vc estava tão insegura em relação ao encontro com sua família após anos longe, e agora tem duas famílias querendo que vc faça parte. E outra, foi bom também para que sua mãe (que te criou) sentisse um medinho de te perder, desse mais valor para vc, já que vc estava com medo de estar sendo deixada de lado, isso muda muito a perspectiva das coisas.

Estou realmente passada com essa história, mas espero que de qualquer forma isso caminhe para uma coisa boa, e acho que vai caminhar sim....só tome cuidado para não se machucar, por isso é bom que vc seja cautelosa...mas achei isso tudo muitoooo bacana!!

Boa sorteeeeeee flor!!
vá contando as novidades desta "novela"...rs!
bjinhos

ps: minha mãe também chama cássia =]

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