- Tarde.
Querido diário:
Comecei minha manhã matutando em algo que escrevi no começo
da semana: que se eu estivesse tendo ajuda de quem já está em Poços - seja de
família ou amigos -, eu não precisaria estar fazendo essa viagem de Outubro
para garantir uma casa e tudo o mais, correto?
Bem, não vou esconder que isso me incomoda e entristece bastante.
Sei que no passado eu não fui uma amiga das mais presentes na vida das pessoas por lá. Mas
mesmo assim eu acho que eu não merecia ser largada dessa forma. =/
O mínimo que se espera de pessoas que conviveram com a gente
a vida inteira é manifestações de solidariedade num momento oportuno e de dificuldades, certo? Mas não é isso o que eu venho tendo.
A verdade pura e cruel é aquilo que tanto relutei em admitir:
não é de hoje que eu venho me incomodando com o fato de que são muitos os anos
que passei longe da minha antiga vida, amigos, família, tudo. Da minha própria essência. De longe eu observo e
especulo sobre suas vidas. Vejo muita coisa que agora existe e eu não entendo. E
confesso que muitas dessas especulações me fazem mal. Os monstros da minha
mente me convencem do pior sobre elas. Me deixam inquieta e ansiosa, louca para estar
em Poços a todo custo.
O que temo, querido diário, é ser esquecida, largada,
substituída.
Temo que passem uma borrada em minha existência e eu seja
reduzida a apenas uma figura esquecida.

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