"Aproveitando esse meu mar de recordações, queria confessar que há alguém de quem eu sinto a falta" .
Rafael é o protagonista da mais forte
história de amizade que já tive até hoje. É alguém a quem já conheço há doze
anos, e o único que foi capaz de compreender meus sentimentos e a me fazer
vivenciar uma amizade tão mágica.
No momento em que entrou na minha
vida e deu a amostra de como seria especial pra mim, os outros, que só estavam
comigo por estar, deixaram imediatamente de existir pra mim. Eu tinha quatorze
anos e estava na oitava série quando um outro amigo meu, JJ, me apresentou o
Rafael. Eles eram da mesma idade e classe, assim como também possuíam o mesmo
físico de gordinho, com a única diferença que Rafael era louro e tinha os olhos
verdes.
Só sei que, ao contrário do que eu
esperava, Rafael se tornou mais meu amigo e muito mais companheiro e
confidente, que JJ. Eu pensava que ele seria só mais um conhecido distante,
alguém novo para apenas jogar bola, mas logo se desabrochou o amigo mais
incrível que uma garota podia ter, e tivemos uma ligação como nunca com
ninguém.
É difícil explicar como era o apego
que eu tinha com Rafael e o quanto ele era especial para mim. O modo como posso
expressar a totalidade de tudo o que éramos e tudo o que eu sentia, é apenas em
dizer que, com ele, eu vivia uma cumplicidade que nunca havia conseguido ter
com nenhum outro amigo, sentia o que poucos me fizeram sentir e recebia dele o
que os outros não foram capazes de dar. Rafael acabou se tornando aqueles
sonhos reais que eu só via em filmes de casais amigos, como naquele, do filme De
repente 30. Rafael era o meu melhor amigo.
Juntos construímos a coisa mais pura,
sincera e verdadeira que eu experimentava, tínhamos um carinho sem medida e
expressado sem medo por ele existir. E o mais legal é que tínhamos tudo isso
sem envolver amor. Ao contrário ao pensamento das pessoas, Rafael e eu nunca
nos apaixonamos um pelo outro, apenas admitíamos o ciúme quando o outro
arrumava uma paquera, mas nunca de verdade tivemos a intenção de namorar. Eu
achava que amor era uma coisa complicada e complexa que naquele momento da vida
não eu precisava entender, e nem tão cedo queria vivenciar. Já sabia de antemão
que se eu misturasse os sentimentos e confundisse meu apresso por ele com amor,
iria acontecer algo que faria nossa amizade especial deixar de funcionar, igual
acontece quando se joga uma chave de fenda nas engrenagens do mais perfeito
mecanismo. Não queria que nada estragasse aquilo. Nada. Nem ninguém.
Depois que nos apegamos muito um ao
outro, Rafael se fazia presente em quase todo momento da minha vida. Foi até um
pouco difícil no início porque, devido a educação que meus irmãos e eu tivemos,
não era sempre que eu tinha a permissão para estar fora de casa, por acharem
perigoso. Aliás, eu nem tinha liberdade para fazer o que eu quisesse na rua,
como meus amigos. Se eu conseguia sair era mais por desobediência e mentiras,
que por permissão.
Rafael e eu passamos muito tempo
juntos, muito mesmo. Passamos por muitas aventuras e confidenciamos muita coisa
um ao outro. E se tem uma coisa em que posso ser sincera em dizer a respeito do
que eu sinto, é saudade.
Sinto uma falta tremenda dele. Das
nossas conversas, dos nossos passeios, das nossas encrencas, da nossa vida.
Sinto falta de poder deitar minha cabeça no ombro dele, de deixa-lo deitar a
dele no meu colo, sinto falta do seu jeito, da sua voz, do seu companheirismo e
do seu estilo largado. Sinto falta do seu violão, da sua paixão pela música.
Sinto falta até das broncas que me dava pelas vezes em que fui tão pateta.
Perdê-lo em 2005 foi aparentemente um baque muito forte para mim, e senti algo
que nunca pude contar para ninguém. E mesmo quando ele reapareceu em 2009,
cheio de problemas e crises pessoais, não senti que Rafael era mais o
mesmo.
Mas nós voltamos a andar juntos em 2009,
voltamos a ser amigos e um prometeu ajudar o outro. Só que eu notei que havia
duas pequenas coisas que o incomodavam muito nos últimos dias em que nos vimos,
em Poços de Caldas: a descoberta da existência de um namorado meu de internet,
e fato de que no final daquele ano mesmo eu ia para o Maranhão me encontrar com
ele.




